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BALANÇO DO ANO

 

Com o termo de mais um ano, repete-se a costumeira mirada para trás a percorrer em retrospecção os últimos trezentos e sessenta e cinco dias de edições musicais. Muitos dias, muitos discos, muitas horas de audição depois, é altura de pesar méritos e insuficiências de intérpretes, de recuperar sensações produzidas pela música e encher esta folha de papel com os discos mais tocantes do ano. Escolher de um universo tão vasto de lançamentos é um exercício limitativo e, por consequência, um acto redutor e subjectivo. E dessa subjectividade, apenas dela e dos estímulos pessoais suscitados por cada um dos discos, derivaram as considerações que aqui se deixam expressas. Ao leitor, estou certo de que estas propostas interessarão como pistas, meros alvitres que levem à descoberta do desconhecido ou ao reconhecimento de reputações. Musicalmente, o ano que agora finda foi como outros: cheio de coisas boas, algumas decepções, outras tantas revelações e muitas horas a ouvir música.

 

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A nível internacional, este foi o ano que confirmou o génio megalómano do americano Sufjan Stevens, autor de mais um capítulo da sua saga musical consagrada aos estados americanos e que, no devaneio do músico, há-de dedicar um disco a cada estado. No segundo álbum da colecção, Illinois, Stevens criou uma obra ambiciosa e ecléctica, um verdadeiro cartão de visita musical e a cuja majestade ninguém fica indiferente. Certamente, um disco omnipresente nas listas de melhores do ano. Ainda em terras do tio Sam, este foi também o ano da ambiguidade dos Animal Collective (Feels) e da pujança rock das Sleater-Kinney (The Woods). Enquanto o trio feminino de Washington prosseguiu a virtuosa rotina de escrever grandes álbuns rock, os nova-iorquinos redesenharam o seu intenso espaço de ambiguidade sonora, na verdadeira caixinha de emoções que é o seu sétimo disco. Além desses, num registo mais plácido, sobressaiu o nome de Anthony. O andrógino compositor californiano fixou definitivamente, ao segundo álbum (I Am a Bird Now), o seu espaço na cena musical norte-americana como songwriter do lado negro do amor. Ainda no capítulo das confirmações, nos E.U.A., uma referência aos discos competentes dos sublimes californianos Mars Volta (Frances The Mute), ao terror do novo trabalho do projecto Sunn O))) (Black One), à pop de casta dos The Decemberists (Picaresque), de Amos Lee ou Josh Rouse (Nashville), ao hip-hop de Edan (The Beauty and the Beat), Kanye West (Late Registration) ou Cam'ron (Purple Haze), à folk dos My Morning Jacket (Z) ou de Devendra Banhart (Cripple Crow) e às múltiplias dimensões rock dos White Stripes (Get Behind Me Satan), dos Queens of the Stone Age (Lullabies to Paralyze), dos Lightning Bolt (Hypermagic Mountain), dos Fantômas (Suspended Animation) ou dos System of a Down (Mezmerize/Hypnotize). A encabeçar a lista de debutantes para este ano na música americana, os irreverentes Clap Your Hands Say Yeah que, à custa de um disco em edição de autor e de algumas reviews favoráveis, geraram algum burburinho à sua volta e prometem agitar a cena rock nos tempos mais próximos. A par destes, embora num registo distinto, a electrónica do projecto LCD Soundsystem marcou pontos num disco de estreia convincente e que deixou água na boca.

Ainda em matéria de revelações, este ano trouxe-nos, do Canadá, a estreia em disco da exuberância da pop alternativa dos Wolf Parade (Apologies to Queen Mary), da mesma Montreal que vira nascer os Arcade Fire, no ano transacto. Também do Canadá, merecem um apontamento de destaque os regressos esperados dos Broken Social Scene e dos The New Pornographers (Twin Cinema). Fora do continente americano, num ano particularmente activo no Reino Unido, o ano ficou marcado pelo regresso em força dos escoceses Franz Ferdinand (na mesma linha do primeiro longa-duração), dos ingleses Coldplay (cada vez mais os porta-vozes primeiros da brit pop) e Depeche Mode (um regresso ao passado mais criativo) e pelas revelações dos britânicos Bloc Party, Art Brut e Kaiser Chiefs (novos mensageiros do movimento rock), da pop elaborada dos Clientelle e da electrónica surpreendente de M.I.A.. Uma nota ainda para os discos bem conseguidos de Jamie Lidell (Multiply), em convenções electrónicas precisas, dos Part Chimp (I Am Come), pela combatividade convulsiva do noise rock que defendem, dos Elbow (Leaders of the Free World) e dos Low (The Great Destroyer), pela competência e requinte, e dos Gorillaz (Demon Days), pela versatilidade da boa escrita.

Pelo resto da Europa, Pascal Arbéz, sob o pseudónimo Vitalic (Ok Cowboy), e o alemão Rajko Müller (Isolée, We Are Monster), agitaram a electrónica europeia. Os suecos Opeth (Ghost Reveries) recriaram conceitos do metal escandinavo e os islandeses Sigur Rós (Takk) produziram mais uma tocante ode glacial. No resto do Mundo, os australianos Architecture in Helsinki (In Case We Die) deram-nos uma amostra do mais puro e irresistível psicadelismo electrónico, os congoleses Konono n.º 1 (Congotronics) fizeram-nos dançar ao som do likembé e a dupla invisual (do Mali) Amadou & Mariam (Dimanche à Bamako) encantou-nos com um passeio de Domingo às sonoridades africanas. Mas 2005 foi, também, um ano marcado por alguns regressos sonantes e alguns flops. Rolling Stones, Paul McCartney, Kate Bush, Bruce Springsteen, Madonna, Vashti Bunyan, Nine Inch Nails e Sinnéad O'Connor regressaram às lides discográficas sem medo das sombras do passado e conseguiram, uns mais do que outros, não deslustrar o património que ostentam e até, em alguns casos, acrescentar novos ingredientes ao receituário costumeiro. Nas desilusões, os nomes de Moby, Tori Amos, New Order (outro regresso "histórico") e Liz Phair marcaram edições discográficas menos felizes.

 

 

No que toca à música nacional, para além da confirmação dos créditos de compositor de Francisco Silva (Old Jerusalem), do pianista Bernardo Sassetti e dos criativos Blasted Mechanism e D-Mars (sob o pseudónimo Rocky Marsiano), também dos regressos de Sara Tavares, David Fonseca e Rui Veloso, o ano foi particularmente dinâmico para as divas do fado moderno, com discos novos de Mariza, Mísia e Cristina Branco, e deram-se a conhecer em disco alguns conceitos musicais que, até aqui, estavam guardados no anonimato. Nesse grupo incluem-se o guardense Victor Afonso (Kubik), que nos proporcionou um invulgar exercício de bricolage musical, o colectivo lisboeta Ölga, os luso-canadianos Funami, o Complicado Miguel Gomes, os rappers Factor Activo, Serial, Sagas e Preto, os Loosers, os If Lucy Fell e os mirandeses Galandum Galundaina. Foram estes os nomes que fizeram a melhor música de 2005.

 

 


Os 30 melhores discos que passaram pelo apARTES


30. COMPLICADO
HAUNTED

Raramente um disco consegue apurar tão bem a simbiose entre a prolixa disseminação dos estilhaços (re)colados de uma existência urbana e o recolhimento contemplativo do sujeito. Neste caso, o protagonista é o portuense Miguel Gomes (o músico por detrás do Complicado) e o conceito musical navega em águas dúbias, com uma acalmia folk a servir de pano de fundo, por vezes a atrever-se em trejeitos rock , sem renunciar a um vínculo desafiador de convenções, onde cabem, sem preconceitos, ruídos quase psicadélicos, em cruzamento pacífico com a indispensável assiduidade da guitarra acústica e de percussões minimalistas. Das meta-canções de Haunted , em permanentes derivações pelos ramais da imaginação de Miguel Gomes, deriva um manifesto íntimo que não se impõe restrições artísticas e que se deixa domar apenas pela força motriz das suas próprias quimeras. O resto é uma sugestão sensitiva em cadência tarda, um mix de emoções confessadas em solilóquios velados e que não se envergonham da sua timidez lo-fi . Apetece revisitar Haunted sem cessar e (re)descobrir os imensuráveis detalhes não percebidos antes e que se desenham como reticências num verso branco.

Haunted é uma proposta imperdível - mais uma pérola resgatada do anonimato da cena musical portuguesa pela mão da etiqueta nortenha Bor land - e um disco simultaneamente ecléctico e simples. Do rock-blues de "Tonight", à privacidade de "Half Dead Body", ao timbre instrumental de "On The Way Back From The Beach" ou à pop calmante de "Sweet Monkey of Mine", Haunted inventa esqueletos de composições honestas e deixa-nos o encargo de dar-lhes corpo na mente. E não é custoso. Complicado mesmo é manter o álbum fora do leitor de cd's.

 

 


29. MY MORNING JACKET
Z

A filiação do mundo musical dos My Morning Jacket à estética da velha escola country não se confina à voz nasalada (ao jeito de Neil Young) do epicentro criativo do quarteto, o vocalista/compositor Jim James. Mais do que isso, a disposição das canções do ensemble americano acolhe o traço classicista das mais marcantes raízes da música americana e conforma-as a normas regeneradoras, sem desprimor para as suas medidas originais. O fim não é a altercação com o passado, antes a restauração criteriosa de um género eterno. E os My Morning Jacket fazem-no, neste trabalho (o quarto da sua existência), com o apuro de uma arrumação pop sem pejo de chamar a si a reverberação do rock ou o serviço diligente das teclas, numa escrita cerrada, criativa e estilisticamente exuberante. Afora isso, há em Z um reforço da faceta experimental do grupo, particularmente notória no redimensionamento da abstracção das canções que, sem se tornarem evasivas, se desmultiplicam com fulgor e irreverência. O alcance dessas impressões é ilimitado: elas emancipam-se e sobejam além dos quarenta e poucos minutos do disco; ficam como que ressonantes, espiam-nos o âmago, seduzem-nos até a mais ínfima molécula, prendem-nos a consciência e enfeitiçam-nos irremediavelmente.

Z é um monumento musical que, além de invocar memórias indeléveis, deixa o selo distintivo de uma banda capaz de urdir uma fibra musical simultaneamente contemporânea e clássica, com canções adultas e que humildemente se empossam dos paradigmas pop dos R.E.M, dos U2, dos Mercury Rev, dos The Clash, de Mark Kozelek e de Neil Young, entre outros, para os reconverter a um dialecto alternativo e espiritual. Neste místico alfabeto, ao invés de ser o ómega, talvez a letra Z seja apenas o começo...

 

 


28. PART CHIMP
I AM COME

Uma emboscada além da compreensão, um minuto-e-trinta-e-seis segundos arremessados ao ouvinte com despudor, assim se inicia I Am Come , o novo (e segundo) trabalho dos Part Chimp. A melodia é trocada, em adultério exercitado conscientemente, pela descarga eléctrica incessante, buliçosa, repetitiva, igualmente angustiada e furiosa. A voz insinua-se e, com fragilidade, tenta sobreviver num oceano de ruído e distorção. A violação pungente dos canais auditivos é uma patologia do colectivo britânico, rebela-se em cada segundo de depravação sonora contra convenções. A alienação de I Am Come é um fim e um meio, como um terramoto saturante que jamais se esgota ou um manancial em tempo algum exaurido. E o fluido inspirado que escorre das entranhas dos feedbacks e guitarras angulares do álbum redunda numa incessante hipnose do ouvinte, em crescendo com o disco. Saturador e sufocante ou irresistível? Literalmente, I Am Come é o contraposto psicadélico do rock actual e assume-se como o protótipo da evolução seguinte. Os Part Chimp votam-se ao desalinho, são terroristas sem paralelismos e assinam um registo inebriante, caótico e demolidor.

A dinâmica de I Am Come é sonicamente intensa mas não há uma nota fora de lugar, a concisão do discurso está em proporção. Depois, o composto musical dos Part Chimp é tão volumoso que faz corar de desonra qualquer banda de noise-rock . Se há música capaz de demolir construções, Tim Cedar e seus pares são a filarmónica certa para esse ofício e I Am Come o bulldozer infalível. Efeitos secundários prevísiveis: impulsos descomedidos para insistir na audição repetida do disco e...uma mais que provável consulta no otorrinolaringologista! Imperdível.

 

 


27. KUBIK
METAMORPHOSIA

O guardense Victor Afonso regressa às edições discográficas depois do inesperado Oblique Musique , lançado em 2001. Em Metamorphosia é mantido o acento tónico na componente experimental das composições, em rompimento declarado de convenções ou pretensiosismos. A vertente manifestamente vanguardista das orgânicas electrónicas é revigorada e, mediante a assunção de um risco acrescido, a sonoridade é mais minuciosa e dedica um relevo maior ao detalhe, sem medo da excentricidade (sempre controlada...) de repudiar estruturas de canção tradicionais. O som é objecto de alquimias repetidas, de subversões lúdicas, de fragmentações intencionais, de colagens e sobreposições que seguem os princípios criativos da bricolage de Afonso. A manipulação electrónica é o denominador comum do disco e o veio essencial da metamorfose musical do universo de Kubik, um labirinto conceptual e híbrido, um mundo uno e indivisível, um terreno bravio que apetece explorar ao milímetro. Desse espaço sónico provém um fluido musical invulgar, produto misterioso e progressista de um génio tímido cuja assinatura deixa um lastro quase-dadaísta, qual salteador que rouba pedaços de música ao seu habitat e os sobrepõem em encenações imagéticas multi-camadas, de cargas energéticas contrastantes e que remexem, de jeito surreal, o status quo . Victor Afonso tem uma linguagem musical própria, um código agitador de turbas; Metamorphosia é disforme na dimensão caótica das texturas, é ousado na liberdade criativa e revela-se um nicho polimórfico de plenitude musical.

Metamorphosia é, em si mesmo, um compromisso com coisa nenhuma, um documento musical livre e fatalmente cativante, uma nascente incorruptível, um baú de quimeras descerrado. A preencher o imaginário do álbum destacam-se os vultos de Adolfo Luxúria Canibal, Old Jerusalem (dá para o reconhecer em "I'm a Vampire, I'm Disgust"?), Américo Rodrigues (lembram-se do disco Aorta Tocante feito a partir de vegetais?) e César Prata (do projecto Chuchurumel). Aos outros ilustres convivas desta metamorfose, não se lhes vê o corpo...mas a alma diz presente; é como se Patton, Zorn, Ladd, os cLOUDDEAD, Zappa, os Residents e os Neu se houvessem reunido num sarau heterodoxo em serrania da Guarda. Ou no intelecto de Kubik. Candidato a melhor nacional do ano, Metamorphosia é um disco imperdível.

 

 


26. JAMIE LIDELL
MULTIPLY

 

Mais conhecido como uma das metades do projecto electrónico Super_Collider - que dividiu com Christian Vogel - o britânico Jamie Lidell surge, neste trabalho, no improvável exercício de cantor soul . O avizinhamento entre a estética orgânica da música de dança e os territórios da soul e do R&B concorre para a concepção de sinergias brilhantes, sempre pontuadas pela voz robusta e encorpada de Lidell, aqui metamorfoseada num registo que faria as delícias da clássica Motown. A postura desafiante de Lidell é arrojada o bastante para promover a junção, com um apurado sentido de proporção, das estruturas costumeiras da soul das décadas de 50 e 60 com os ingredientes electro . Assim, Lidell consegue uma retórica musical que é simultaneamente retrógrada - a evocar Sam Cooke, Curtis Mayfield, Marvin Gaye ou Otis Redding - e actual - pelo experimentalismo que faz lembrar Herbie Hancock ou os Prefuse 73. A produção super-moderna e de calibre superior pauta o tom cinético das composições e sublinha a exuberância quase libertina de Lidell, numa genuína viagem que resgata a soul de tempos imemoriais e a reveste com um infalível invólucro de vanguardismo.

Cinco anos depois da sua última edição discográfica, Jamie Lidell ressurge numa imprevista e reverente convocação das raízes da soul . Todavia, a nostalgia não se torna meramente mimética, antes cede o seu lugar ao esculpir de um som ímpar, de alma negra (a pele do rapaz não é da cor do ébano...) e acrobático, feito de tons elásticos, divertidos e enérgicos. Com este trabalho, Lidell prova à saciedade que não é desonra tomar como modelo os clássicos de ontem; o mérito maior do último disco do músico britânico é mesmo o que anuncia no título: a multiplicação dos méritos da soul . Multiply é soul na mais pura essência. Ame-se ou odeie-se, é um grande disco.

 

 


25. THE BOOKS
LOST AND SAFE

O terceiro registo dos nova-iorquinos The Books inaugura um estilo novo para o dueto norte americano, onde a voz (Nick Zammuto) aceita um compromisso maior. As vocalizações desformadas encaixam numa orgânica apurada, feita de guitarras eléctricas tratadas que se repetem em trejeitos minimalistas apetecíveis. As mudanças recorrentes na textura das composições rearmam persistentemente a estrutura ambígua de um disco que se transfigura da musicalidade da spoken word ao eclectismo do experimentalismo electrónico. A intervenção anfibológica dos samples não perturba o charme do discurso, antes promove afinadas sinergias que, por serem autênticas, parecem o desfecho lógico da contingente e feliz genuinidade de um encontro ocasional. E a música dos The Books é isso mesmo, é verosímil no seu não-planeamento e na simetria de elementos aparentemente incongruentes. Raramente um disco com samples consegue a integridade de Lost And Safe .

Definir Lost And Safe é ser inevitavelmente redutor; o capricho dos The Books é, neste trabalho, trocado por um registo mais directo e que investiga a face crua do som, moldando-a com a volubilidade da electrónica. A isso acrescem os conteúdos líricos do disco, em motejo cíclico do modo de vida americano e que De Jong e Zammuto resumem num aforismo irónico: " I want all of the American people to understand that it is understandable that the American people cannot possibly understand. ” Agora nós?

 

 


24. DEVENDRA BANHART
CRIPPLE CROW

Devendra Banhart é um artista. Ponto final. Além da formação académica no Instituto de Arte de São Francisco, o jovem Banhart (tem apenas 24 anos) já vai no quarto álbum de estúdio e tornou-se, entre as classes alternativas, um dos mais prolíficos songwriters da sua geração. Senhor de uma voz trémula e colector de uma miríade de influências, Banhart é um trovador errante, um menestrel dividido entre a folk tradicional americana, os blues , o rock 'n' roll , a música de cabaret , os Beatles e tudo mais que o seu génio criativo consegue confiar intimamente a uma guitarra acústica. Neste Cripple Crow , mesmo imprimindo um cunho acústico às vinte e três composições do alinhamento, Banhart ampliou as texturas das canções, munindo-as com outros ingredientes como as vozes dobradas, as pontuais ingerências orquestrais e o som vacilante de um piano ou de uma flauta. A minúcia de cada uma das peças é a do costume, Banhart não faz a coisa por menos e escreve trechos musicais gentilmente intemporais (são deste tempo mas ficariam bem noutro qualquer...), inevitavelmente cativantes, frescas e inesperadas. E esse viço magnetizante é também um vínculo de diversidade étnica, o reflexo de uma vivência que passou por São Francisco, pela Venezuela e por Paris e que se projecta na tapeçaria musical de Banhart.

Cripple Crow é uma colecção simples de trovas transcendentais que certificam a elasticidade da escrita de Banhart. Pontuado por um imaginário de crianças, o disco é uma celebração esotérica da esperança, da redescoberta dos encantos da ingenuidade e da negação do pessimismo fácil. Musicalmente, Cripple Crow é também uma colagem de géneros, uma paleta multi-colorida e ecléctica, embrulhada numa roupagem psicadélica e nostálgica dos anos 60. Uma elegia musical de um criador que continua a crescer com as canções e a garantir-nos momentos imperdíveis. O puto já é um homenzinho...

 

 


23. KEITH FULLERTON WHITMAN
MULTIPLES

A música vanguardista é multiforme e não se regula por normas temporais. Num despique destemido com a inevitabilidade do tempo, faz-se protagonista de palcos futuristas, com cenários incertos e adornos dos mais alucinantes pigmentos. Assim é também a proposta de Keith Fullerton Whitman. O conceito é electrónico, na raíz da pura combinação de sons sintéticos improvisadamente mecanizados, numa dinâmica que integra elementos minimalistas. Whitman é, ele mesmo, um minimalista e um desintegrador; as suas composições são ensaios tão credíveis, da melhor música gerada artificialmente, que parecem ser fruto da inteligência artificial de uma máquina. Os tons são frios e, abreviando-se à sua interioridade essencial, encenam peças musicais perturbantes. São-no porque repisam incessantemente os mesmos aforismos. E dessas aliterações, no fundo a força motriz das melodias, despontam uma liga coesa de elementos sónicos (o piano e a guitarra encaixam nos ingredientes electrónicos) e um manancial de estímulos sensoriais. Como no rondó de uma sinfonia. Talvez seja isso que Whitman nos dá em Multiples , uma espécie de tentáculo subconsciente e menos convencional da música clássica, em que os instantes de modernidade se confundem com os esboços de uma atmosfera classicista. O traço é melancólico, mesmo abrasivo, mas atribui-se uma dimensão maximizadora do dramatismo teatral e do compromisso emocional.

A vocação mítica de Multiples (e o empenho etimológico de Whtiman) é reforçada pelo recurso a artefactos analógicos, instrumentos que remontam às primícias da música electrónica e que fornecem o músculo e a alma mais oportunos ao vanguardismo nostálgico que Whitman ensaia neste álbum. Há algo de quintessencial neste fascículo da mais pura doutrina musical; há uma aposição dos parâmetros da electrónica, também uma revisão do seu perímetro, num verdadeiro exercício de antropologia musical. Como se isso não fosse o bastante, algures nas alamedas misteriosas da universalidade deste documento, está um compositor de elite, capaz de urdir melodias ressonantes, cheias de elasticidade e com um halo de intemporalidade. Relembrando meados dos anos 70, época em que a electrónica era prerrogativa reservada a músicos de formação ilustre que dominassem a tecnologia, o último opus de Whitman é, em simultâneo, uma edição académica vintage , um disco apaixonado e experimental e um abrigo sem trivialidades. Multiples é um recurso imperdível para ouvidos treinados e amantes do refrescante arrojo da diferença.

 

 


22. BELLE AND SEBASTIAN
PUSH BARMAN TO OPEN OLD WOUNDS

Com cerca de uma década de actividade e oriundos de Glasgow (Escócia), os Belle & Sebastian erigiram um edifício sónico quase intemporal e, em volta de um ideal de quimera pop , produzem um som íntimo e caprichoso, de graciosidade bucólica e tom serenador. Neste Push Barman to Open Old Wounds a sugestão é uma recolha dos E.P. 's gravados pelo septeto escocês entre os anos de 1997 e 2001, sendo certo que esse formato era o escape dos Belle & Sebastian para projectar inflexões criativas e optimizar o seu arsenal de composições. De resto, a feição das vinte e cinco canções arroladas nesta edição (disco duplo) é demonstrativa da vocação da banda para tecer delicados instantes de pop sofisticada, profundamente emotiva e esmerada nos arranjos barrocos. Mais do que uma mera colecção de raridades e faixas não editadas em álbum, talvez este Push Barman to Open Old Wounds seja o documento mais representativo da matéria dos B&S, um fidedigno cartão de visita para a afabilidade do seu mundo onírico e obscuro, reverenciador de uma fórmula pop nostálgica do espírito 60's - com alguma coisa (ou não?) de Velvet Underground, de Nick Drake ou dos Felt - a que se juntam, com versatilidade, a melancolia introspectiva e a quietude sorumbática da folk .

Push Barman to Open Old Wounds não é apenas um alvo para coleccionadores ou para séquitos dos B&S. Trata-se de um edição incontornável que recolhe algumas das melhores canções do grupo escocês e é um testemunho dos préstimos de uma banda que evoca um imaginário quintessencial de saudade e contemplação, registado em composições primorosas que, se deleitarão sem reservas os seguidores dos Belle & Sebastian, trarão novos fãs ao ensemble de Stuart Murdoch. Assim se dêem as devidas honras à coesão e pertinência desta compilação que mostra mais dos B&S do que qualquer um dos registos anteriores do grupo isoladamente exibia. Imperdível.

 

 

21. ISOLÉE
WE ARE MONSTER

O alemão Rajko Müller (aka Isolée) já tinha deixado bem claro, quando há cinco anos editou o álbum Rest , que não é homem para perder o sossego (e o norte) mesmo quando o edifício da electrónica ambientalista, como se fez tendência recente, se permite derivar para outras escolas. Para ele, o dogma de Eno continua a ser um ensinamento de utilidade quotidiana, nas métricas, na volatilidade, nos ritmos variáveis, no espaço misterioso de sons digitais. A música torna-se necessariamente um modelo de liberdade criativa, é como um estudo sem palpites formais, indiferente aos argumentos do tempo. O corpo é essencialmente instrumental mas aceita aparições esporádicas da voz, integrando-a num jogo de vectores tridimensionais donde provêm o aprumo minimalista e o charme pelo rigor. E não se trata de rigor feito de precisões, as melodias exibem-se propositadamente desarrumadas, com sons volantes guiados por um encorpado fio de prumo disco que confunde qualquer definição contemporânea de funk . Depois, Müller enfeita este jogo de partículas sintéticas com breves ornamentos orquestrais, conferindo outros pigmentos às paisagens sonoras que We Are Monster vai sugerindo na mente do auditor. Além do mais, Müller até facilita as coisas para os mais preguiçosos: as composições estão subliminarmente mais próximas de servirem no molde de canção.

We Are Monster é um daqueles discos de viciação fácil, tão imediatamente ele captura as graças do sentido auditivo e, com mais presteza ainda, reclama os serviços perceptivos do cérebro e acorda os nervos amorfos do sistema nervoso central. Trocado por miúdos, é um disco profundo que nos faz (querer) dançar mesmo que nem nos levantemos do sofá. Chamam-lhe I.D.M., música de dança inteligente, na língua lusa. Que é intuitivamente dançável, lá isso é. E se inteligência é sinónimo de super-abundância de elementos e subtileza melódica, então We Are Monster é música inteligente. Esquecendo os rótulos, é um álbum indispensável e um dos exercícios electrónicos mais inspirados de 2005.

 

 


20. LIGHTNING BOLT
HYPERMAGIC MOUNTAIN

Um baixo irrequieto em alucinação ininterrupta, uma bateria frenética em voltagem descomedida, latejos maníacos e muito, muito, mesmo muito estardalhaço são os sinais dos Lightning Bolt. Nas cátedras musicais é vulgar chamar-se noise rock a (des)arrumações como estas. O ruído é, de facto, agente dominante e atira-se, incontinente, aos tímpanos do ouvinte; a distorção rude testa os limites do suportável e o compasso feroz das composições, numa lógica caótica de ritmo, faz desta edição uma experiência arriscada. Escutar Hypermagic Mountain é precipitar-se numa electrizante e abrupta espiral da mais crua alienação que o rock é capaz de produzir. Os Lightning Bolt são filhos bastardos da música, não seguem doutrinas mas fazem escola e declaram-no sem refreamentos. Brian Chippendal (bateria e voz casual) e Brian Gibson (baixo) exprimem-se numa orgânica visceral de dimensão quase épica. Sente-se, na urgência sufocante das composições, uma estupefaciente tensão; ela é o veículo indispensável à catarse abstrusa da dupla americana. Enquanto o baixo é um dínamo incessante e debita padrões austeros numa passada incansável, a bateria ajuda ao furacão psicadélico, qual metrónomo convulso. Ruído e velocidade em partes iguais.

Hypermagic Mountain é a quarta revelação insana desta dupla. Ortodoxia é coisa que não cabe na montanha delirante de Chippendal e Gibson. Eles preferem o improviso híbrido, a rebelião contra a regra, o devaneio impulsivo, a coloração em hipérbole, o ângulo agudo...Tal como a ilustração da capa, a música dos Lightning Bolt é uma amálgama de formas e conceitos, uma embrulhada de tons e matérias. Esta receita não é simpática para ouvidos preguiçosos, mas fará as delícias dos amantes das descargas iterativas de adrenalina dos Wolf Eyes ou dos Orthrelm . Se tem mente aberta para assistir, em segundos, à aniquilação impiedosa dos conceitos clássicos de música e de álbum, só falta ter tímpanos resistentes.

 

 


19. THE DECEMBERISTS
PICARESQUE

O mais recente trabalho de Colin Meloy e seus pares é um disco profusamente teatral, desde logo atestado na sugestão burlesca do título, Picaresque . Todavia, as composições deste trabalho não se resumem a esse adjectivo, crescem bem além dos registos anteriores da banda, demonstrando uma vitalidade imprevista e uma noção de acuidade assinalável. Os ritmos são melífluos e moldam uma atmosfera simultaneamente melancólica e apaixonada, de onde deriva a condição dramática e teatral do trabalho, exposta com uma produção prestadia. O ajuste do produtor Chris Walla dá ao som dos Decemberists estados triunfantes não ouvidos em registos anteriores e oferece o condimento maiuscúlo à fórmula indie rock do grupo.

Picaresque é uma tragicomédia bizarra com um protocolo vaudeville em que a paleta de sons variados enriquece a facúndia de Meloy, ajudando a formar um tomo de composições sólidas, o melhor trabalho dos The Decemberists. Meloy escreve: "I'm a writer, a writer of fictions" (vide "The Engine Driver"). Picaresque traz-nos essas alegorias únicas e é um seguro passo em frente do colectivo americano rumo ao destino que o seu potencial prometia. Recomendável.

 

 


18. BLOC PARTY
SILENT ALARM

A sugestão sónica que inspira os Bloc Party parte dos Joy Division ou dos Sonic Youth e aproxima-se dos horizontes musicais dos celebérrimos Franz Ferdinand, que de resto apadrinharam o nascimento deste colectivo britânico. Silent Alarm é o primeiro longa-duração dos Bloc Party e promete tornar-se uma das revelações deste ano. O disco é consideravelmente maduro, especialmente para um quarteto que não há mais de dois anos parecia perdido pelo circuito de bares do Reino Unido, sob o nome de Union. Pois bem, os rapazes mudaram de nome, revitalizaram-se e escreveram um registo de compromisso, criativo e cativante, com uma beleza elástica que seguramente fará dos Bloc Party uma das sensações de 2005.

O talento de composição do grupo saracotea-se nas treze faixas de Silent Alarm lançando declaradamente um desafio ao universo melómano: serão os Bloc Party os senhores que se seguem ? A previsão é arriscada mas a versatilidade deste tomo agarra-nos do primeiro ao derradeiro instante. Silent Alarm é a combinação quase imaculada do perfeccionismo artesanal na escrita com um sentido apurado de oportunidade e congruência.

Os Block Party oferecem-nos um dos mais graciosos álbuns de estreia dos últimos tempos, com doces pitadas de rock revivalista a la Strokes, instrumentalizações de bom nível, uma produção cristalina e vocalizações invulgares, dando provas da noção de risco dos Bloc Party e da concomitante assunção de uma postura que os levará à primeira linha do protagonismo para este ano. Silent Alarm era um disco aguardado com reticências e que, agora que chega às nossas mãos, subjuga quaisquer desconfianças e merece justo panegírico. Vivamente recomendado.

 

 


17. M. I. A.
ARULAR

Electrónica ilusivamente sem dominação, originalidade em compassos frenéticos e irreverência fina são os ingredientes de M.I.A.. A musa por detrás do epónimo é Maya Arulpragasam, uma britânica com ascendência no Sri Lanka. A sua música densa é ingenitamente dançável e recolhe influências de géneros diversos, desde o rock à electrónica underground , misturados com exuberância e num tom festivo. O registo resulta enigmático e contrastante, também fatalmente sedutor, e demonstra potencial suficiente para gerar um culto à volta de M.I.A.. Arular é um filho bastardo da eletro-pop , uma súmula caótica de vocalizações exuberantes, percussões cacofónicas e muita electrónica. Arular é uma das mais compensadoras revelações deste primeiro quarto de 2005.

 

 

 

 

 


16. ARCHITECTURE IN HELSINKI
IN CASE WE DIE

Não se deixe enganar pelo nome, os Architecture in Helsinki são um octeto australiano (de Melbourne). Normalmente reconhecidos pela completude invulgar do seu som, especialmente em virtude do recurso a um vasto arsenal de instrumentos - entre eles estão a tuba e o clarinete - os músicos tecem protótipos sónicos que misturam com engenho a orgânica electrónica e o imaginário da pop naïf . Neste In Case We Die , o registo é multidimensional e corta transversalmente uma miríade de influências, resultando numa massa acústica inédita e marcada por oscilações contínuas no alinhamento do disco e variações em frenesi nas faixas. A produção cristalina é o pedestal acertado para a condição vibrante da face instrumental, a que se juntam espectros vocais diversificados (os oito elementos do grupo dão um contributo). Tudo junto, In Case We Die assemelha-se a um ponderado laboratório de experiências sonoras, confirmando os Architecture in Helsinki como artesãos na primeira linha da reinvenção das estruturas da música. A indefinição e o caos do espaço criativo do grupo é, neste caso, o mérito maior do disco.

Versatilidade a rodos, talento à larga e uma noção de liberdade criativa nos limites da sensatez são os condimentos essenciais de In Case We Die . Encaixá-lo no escaparate ordenado de um género musical na loja de discos do quarteirão? Impossível. Ouvi-lo? Obrigatório.

 

 


15. BROADCAST
TENDER BUTTONS

Não se deve despertar um sonâmbulo. Assim dispõe a sabedoria popular, não em defesa do sono mas do indivíduo que, entregue à dormência, decide caminhar, falar e dar-se às demais coisas que faria se estivera acordado. E se repentinamente um disco nos fizesse assim sonâmbulos, ou fosse ele mesmo uma obra sonâmbula, pousando-nos no sonho fascinante de uma pop fora de moda e induzindo-nos, em simultâneo, os gestos e vocábulos de uma linguagem artificial avant-gard ? Deste jeito nos toma as rédeas o mais recente álbum dos britânicos Broadcast. As convenções pós- rock a que se propõem Trish Keenan e James Cargill reduzem-se a uma matéria essencial: esta música não é feita para parecer bem, nem para encaixar em moldes pomposos. Ela soa, na sua íntima substância, a qualquer coisa de fresco e moderno, mesmo que repetidas vezes se fique num minimalismo esqueletal ou até se extravie nos seus próprios enigmas. Tender Buttons é um daqueles discos simples que nos reconciliam com a electrónica espacial quase desintegrada e o mistério de uma voz hipnótica e álgida, uma espécie de Françoise Hardy sob o efeito tóxico de cogumelos. E essa voz esotérica faz-se instrumento, desenhando mímicas que robustecem as fantasias psicadélicas das composições.

Tender Buttons projecta estradas alternativas para um destino ousado: antecipar a fórmula química da pop de amanhã. Os dotes dos britânicos para a adivinhação podem ser contestados mas este futuro de sentido único está aí, ao virar da esquina; basta aceitar o feitiço de sons manipulados de Tender Buttons , perceber-lhe o convincente frasismo melódico e render-se à evidência. Com o carinhoso embalo deste disco, o pior que há-de suceder é que nos adormeça o sistema nervoso e, quando dermos por nós, estarmos caminhando durante o sono, de braços em riste, em demanda de coisa nenhuma. Falemos baixinho, não é bom acordar-se o sonâmbulo.

 

 


14. VITALIC
OK COWBOY

Pascal Arbez é o obreiro do projecto francês Vitalic. Ok Cowboy é o primeiro longa duração do músico e produtor e esquadrinha com minúcia o universo da electrónica techno , captando as eufóricas formas das suas performances ao vivo, onde o músico combina com acuidade a exuberância das texturas que escreve com a atmosfera festiva que lhes incute. Profundamente equilibrado e com perfeita noção de ritmo, Ok Cowboy é um tomo de composições modernas e que definem um traço idiossincrático inconfundível e que, merecendo a exposição generalizada, consagrarão Arbez como um dos nomes mais relevantes da cena electrónica actual. A precisão mecânica deste trabalho ajuda à criação de uma atmosfera oscilante e variada, sempre pautada por batidas firmes e pela inclusão de ruídos sintéticos sumptuosos. Em termos orgânicos, o álbum consegue a rara façanha de ser hiperactivo sem perder o tacto da proporção.

Ok Cowboy é um acto sublime da electrónica, uma referência obrigatória para este ano, para fãs de techno e todos os melómanos com abertura de espírito lata o suficiente para aceitar uma experiência inédita. Se este texto não chega para afiançar a qualidade deste trabalho, talvez a memória de John Peel ajude: o afamado radialista, pouco antes do falecimento, havia convidado Vitalic para uma das suas famosas sessões...É preciso dizer mais?

 

 

 


13. ANDREW BIRD AND THE MYSTERIOUS PRODUCTION OF EGGS
ANDREW BIRD AND THE MYSTERIOUS PRODUCTION OF EGGS

Andrew Bird era originalmente um violinista. Dessa formação clássica derivam alguns vectores essenciais da escrita do cantautor de Chicago: a orgânica, a sofisticação, algum maneirismo e uma refinada consciência de melodia. Se os quatro registos anteriores do autor são a prova evidente da versatilidade camaleónica que empresta à composição, nela infundindo um leque lato de inspirações e um toque pessoal único. Neste registo, provavelmente o mais ambicioso da carreira do compositor, a música é delicada, serena e evoluída. O tecido orgânico deste álbum é fiado com uma súbtil captação de sentimento, desafiando o auditor a resistir ao magnetismo invencível das canções. A vivacidade tímida das composições marca pontos do princípio ao termo do disco, confirmando Bird como autor de eleição, um polímato entre Buckley, M. Ward, Banhart e Wainwright.

A composição e as intrumentalizações são soberbas, sobrepujando conceitos e fronteiras e compondo um título rico, assumidamente ecléctico e deliciosamente melancólico. Depois, da aparente complexidade sónica ressalta uma integridade marcante, onde os instrumentos, a voz, a letra são fracções cujo sentido maior reside na junção. O desfecho é um disco absorvente, uma obra simples que cresceu das suas fundações e se tornou um pomposo caleidoscópio de sons diferentes. O segredo de Bird desmonta-se pouco a pouco, o ouvinte é encantado (também surpreendido) a cada instante. Andrew Bird & The Mysterious Production Of Eggs é um dos momentos altos do ano.

 

 


12. EDAN
THE BEAUTY AND THE BEAT

Edan Portnoy pode ser um intérprete ignorado pelos circuitos mainstream do hip-hop mas o seu nome não é indeferente à comunidade underground , no seio da qual conquistou um estatuto exclusivo, mercê da força aglutinadora da sua música e da ubiquidade da sua influência. Como se isso não bastasse, o músico de Boston ainda acumula, com particular nobreza, os artifícios de programador e sampler . Beauty and the Beat é o segundo longa-duração de Portnoy e cuida de venerar o rap de outrora, ao mesmo tempo que lança mão de inéditas proximidades a outros sons, em especial o eletro-jazz e o rock . Nessa medida, o registo assume proporções conceptuais, seja pelo viço inscrito na orgânica musical ou pelo estado idiossincrásico do conteúdos líricos.

Edan Portnoy parece ter encontrado, com o conciso Beauty and the Beat , o seu porto seguro na revoltosa cena underground . O disco é um decreto formal de fusão de influências que percorrem décadas e que acolhem, com idêntica propriedade, o psicadelismo genial de Hendrix ou a crua veemência dos Ultramagnetic MC's e dos Wu-Tang Clan. A colagem de sons é equilibrada e produz, sílaba a sílaba, tom a tom, um fluxo criativo demasiado fértil para se circunscrever ao mundo hip-hop ; Beauty and the Beat é coisa maior, serve como declaração de uma classe sónica distinta e colectora de influxos tão retro quanto avant-garde . Uma edição imperdível.

 

 


11. ART BRUT
BANG BANG ROCK & ROLL

O nome do grupo é inspirado na definição do pintor francês Jean Debuffet para as mais variadas manifestações artísticas de sujeitos socialmente marginalizados e que vêm no produto-arte, sem pretensões ou regras, um meio privilegiado de comunicação. E é exactamente esse libertino desregramento artístico da arte de reclusos ou dementes que os londrinos Art Brut infundem na sua assinatura musical. A raíz está na insurreição do punk , aqui moldado com um engenho artístico superior a que não é indiferente a elasticidade vocal de Eddie Argos, num registo suficientemente fora de tom para não ser canto e afinado q.b. para não ser uma simples fala. As guitarras angulares preenchem o restante espaço sónico do disco, com uma precisão arrepiante e uma vivacidade electrizante. A competência dos músicos é convertida, com erudição rock , em exuberância sem exageros e em indomável genialidade criativa que transforma este álbum numa das mais originais e definitivas insinuações alternativas dos últimos tempos. E não há reticências aqui, os Art Brut insinuam com pontos finais cristalinos. Cada pedacinho deste Bang Bang Rock'n'Roll parece ter sido pensado meticulosamente para entreter e, mesmo com esse compromisso calculista, o disco não deixa de captar integralmente a rebeldia irónica do colectivo britânico. Além disso, o paradoxo maior do disco - que é também a sua força motriz essencial - é o poder (des)construtivo da escrita dos Art Brut: sem alquebrar, os rapazes ingleses implodem o punk e, aproveitando a energia gerada no processo, recriam-no com uma renovada amplitude. Mais do que Art Brut, o conceito sónico do grupo é art-punk .

Bang Bang Rock'n'Roll é uma inoculação imparável de adrenalina e tivessem algumas faixas uma pitada extra de acidez e estaríamos perante uma edição indispensável. Ainda assim, trata-se de um disco luzente e que apetece consumir sem comedimento. Com Bang Bang Rock'n'Roll , os Art Brut trouxeram um novo argumento ao rock : "popular culture no longer applies to me" diz Argos em "Bad Weekend". Debuffet tinha razão.

 

 


10. THE NEW PORNOGRAPHERS
TWIN CINEMA

O colectivo The New Pornographers integra Carl Newman (dos Zumpano), Neko Case (como vocalista convidada), John Collins (dos Thee Evaporators), Dan Bejar (dos Destroyer), o guitarrista Todd Fancey, o teclista Blaine Thurier e o baterista Kurt Dahle. Sediado em Vancouver, o super-grupo canadiano tornou-se matéria de culto desde a edição de Mass Romantic (2000) e especialmente de Electric Version (2003), pelo que as expectativas de antecipação de Twin Cinema eram elevadas. O terceiro trabalho de estúdio do grupo aprova o mesmo esquema estético dos seus antecessores, subscrevendo um compromisso com eufonias delicadas e um som luzidio e livre de impurezas, em composições cativantes e construídas com elegância. A opulência na justa medida das canções é o certificado de um som que, sem soar anacrónico, evoca a pop clássica dos anos 60 e 70 (um pozinhos dos Kinks..?) e é aconchegado por uma produção destra e que empurra o registo dos The New Pornographers para uma toada enigmática que fica equidistante da sedução inquietadora e do conforto intimista (lembram-se do disco The Slow Wonder de Newman?). Àquela componente inveterada, o ensemble acrescenta um entusiasmo fervoroso e expansivo que, aliado à diversidade vocal das canções, impõe uma insígnia de coesão power-pop à estrutura verso-refrão-verso. Contudo, o simplismo dessa regra serve apenas de fundação a texturas além-fórmulas que afirmam uma certa complexidade rítmica, desenhada em multi-camadas sobrepostas com sobriedade e que não perdem o imediatismo.

Twin Cinema não mudará o sentido de rotação da Terra dada a dimensão reduzida do seu impulso inovador. Todavia, o disco escapa ao vulgar plagiato do universo pop , negando os clichés e assumindo, de corpo inteiro, a efervescente idealização de Newman e seus pares, no resgate de sonoridades julgadas extintas e no risco de as moldar delicadamente a uma identidade remoçada. E desse (re)arranjo nasce uma assinatura de autor. E um grande disco.

 

 


9. SLEATER - KINNEY
THE WOODS

Trio feminino natural de Washington, as Sleater-Kinney são fidedignas especuladoras rock , não porque a sua música soe a ardil mas porque se aventuram arrojadamente a refinar repetidamente o seu traço distintivo. The Woods é o mais recente trabalho das irreverentes americanas e se aparenta atributos mais experimentais do que os registos anteriores, não deixa de fazer justiça ao património rock do grupo: é acérbico q.b. e assaz ruidoso - as guitarras são graves e as percussões jactantes. O resto é uma demonstração inequívoca da maturidade criativa da banda, talvez aqui elevada ao ponto mais alto do seu percurso, a que acresce a captação em disco da esfuziante e ígnea energia das actuações em palco. Assim, The Woods é uma vigorosa injecção de adrenalina que, além de marcar uma etapa inédita no grupo (é o primeiro disco gravado para a Sub Pop), se revela um tomo irresistível do melhor rock que se produz hoje em dia. Além disso, o disco encerra um compromisso de coesão que não era notado em outros trabalhos das Sleater-Kinney, amparado numa produção de eleição e em composições que interceptam o espírito nostálgico dos tumultuosos 70's e o esmero diabólico de renovação das medidas do rock .

The Woods pode não ser um álbum de consumo imediato mas, com audições repetidas, torna-se um cerimonial rock purificado, uma massa sónica improvável e paradoxalmente urdida numa teia de caos e elegância, afinal, o axioma máximo das Sleater-Kinney. Um disco imperdível que cruza a ambiguidade do suicídio, das relações humanas e da política com a rectidão assertiva do rock . Uma excursão open-minded a estes fecundos bosques das Sleater-Kinney pode muito bem vir a ser uma viagem para não mais voltar.

 

 


8. ANTHONY AND THE JOHNSONS
I AM A BIRD NOW

O segundo trabalho dos Antony & The Johnsons é um disco profundo, daqueles que se entranham sem pedir licença, dos que nos roubam ao afã existencial e nos instigam a suster a corrente irreversível da vida. Apetece ficar imóvel sob o jugo sublimado da voz andrógina e trémula de Antony e do capricho galhardo da sua escrita. I Am A Bird Now é feito de canções encantadoras, também inquietantes, assentes numa matriz de arranjos harmoniosos de piano e voz que destaca a sinceridade agridoce da proposta. A enriquecer a casta deste registo, Rufus Wainwright, Boy George, Devendra Banhart e Lou Reed dão uma ajuda respeitosa.

I Am A Bird Now é um tomo de beleza desconcertante e irresistível, despido de artifícios - como a fotografia de Peter Hujar a retratar a transexual Candy Darling (1974) na cama que seria o seu leito de morte; a voz de Antony leva-nos pela mão em divagações românticas sobre amores impossíveis, purgatórios negros, a ambiguidade dos géneros e o medo da solidão. O disco é uma majestosa epifânia ao expressionismo de uma voz com emoção transcendental e a simplicidade de uma utopia maravilhosa de criança (lembram-se de Joanna Newsom?). I Am A Bird Now é belo, calmoso e quente na forma mágica de uma fantasia de que não se desperta de moto próprio. Registo imperdível, I Am A Bird Now é um daqueles discos que se pensavam extintos.

 

 


7. SUNN O)))
BLACK ONE

O sol pôs-se ainda antes de nascer, o céu subsiste na negrura de uma longa noite que não se foi. Sente-se no ar o cheiro putrefacto do medo, dos sedimentos nas cavernas húmidas, dos dejectos de insectos disformes e devoradores de carne humana. O fôlego escapa-se na claustrofobia sufocante do vazio escuro. O chão é apenas a sombra desmedida de uma floresta negra, cansam-se os olhos na incrédula busca da ténue luz no horizonte. Escutam-se, ao longe, gritos arrepiantes de tormento e trazem consigo o silêncio cúmplice dos corvos malditos. As árvores negras dizem sarcasmos de morte e disfarçam sentenças em sorrisos cínicos; os copiosos raizeiros desprendem-se com vagar da terra, arrogam-se de serem pés e afoitam-se a intentar um passo, depois outro, ainda outro. As pernadas são agora braços e executam assustadores movimentos de equilíbrio, como se esta árvore, também aquela além, e as outras que nos miram pudessem olhar, tomassem subitamente consciência da cinemática de que sempre se acharam privadas até este instante. Perplexas, uma após a outra, as árvores de troncos e folhas negras libertam-se da terra, encaminham-se para nós, num compasso demorado e pesado. A cada passada hesitante, a terra treme e os monstros parecem maiores. Das bocas e cordas vocais imaginárias das aterradoras criaturas nascem sons penetrantes, pedaços de ruídos fragmentários que se desunem no ar e desenham um grotesco prenúncio de sangue. Elas são árvores-vampiros e, dominadas pelo feitiço de dezenas de noites, vêm roubar-nos o plasma. Têm o mesmo sonho, a utopia da juventude imortal da Condessa Bathory que, banhando-se no sangue de jovens adolescentes assassinadas, supunha preservar a mocidade. Não percebem a evidência da sua própria morte que, mesmo caminhando, a denúncia negra e podre da sua fisionomia torna irrefutável. E desaparecem, reduzem-se à pobre condição de árvore defunta; os membros devolvem-se, na mesma presteza com que se moveram, à morrediça resolução do tempo, apagando-lhes a burlesca memória de um dia terem andado como gente. Os corvos esvoaçam para longe, já lhes não cheira a iguaria. Volta a morte ao palco negro, o universo dos Sunn O))).

Black 1 é o corpo musical de um mundo assim. Guitarras pesarosas e labirintos sónicos inquietantes. O propósito essencial é a escola do doom metal ou o trejeito gótico, com uma extensa paleta de minúcias experimentalistas. Há qualquer coisa de horror nocturno, de um assombro que impele o auditor a esquadrinhar as raízes do medo abstracto, dos receios caprichosos sem destino. Num cenário de saturação deste tipo de sonoridades, os Sunn O))) descobriram a pedra filosofal que distingue a sua assinatura das demais e oferecem-nos o seu melhor trabalho. Um disco absolutamente indispensável, de proporções épicas e ritualistas e negrura perturbante e hipnótica. Porque assim são os Sunn O))). E porque o medo é um lugar estranho.

 

 


6. WOLF PARADE
APOLOGIES TO QUEEN MARY

Eles são quatro canadianos, vêm de Montreal e apresentam o primeiro longa-duração. Chegados à Sub Pop pela mão de Isaac Brock (o mentor dos Modest Mouse também assina a produção deste álbum), os Wolf Parade prometem sacudir o mundo indie à custa de alegorias rock que trazem à memória as referências óbvias da passada folk deliciosamente desengonçada dos Modest Mouse, do fervor sumptuoso dos compatriotas Arcade Fire, da incontinência criativa de Bowie e do intento melódico dos Pixies. Se a isso se une uma escrita com conta, peso e medida e uma produção que ajuda a colorir, sem desregramento, o tecido sónico do grupo, o efeito é um álbum digno de figurar no quadro de honra para este ano. Depois, os vocalistas Spencer King e Dan Boeckner dividem registos vocais recurvos, sublinhando a pose quase afrontosa do discurso dos Wolf Parade. Será que eles se dão conta? A tensão/excitação que nasce do som destes canadianos é feita de concomitâncias paradoxais: eles são a ferida e o lenitivo. Apologies to Queen Mary é capaz de agrilhoar o ouvinte, deixá-lo atado sem alegação para, de seguida, o libertar em afagos. E tudo isto é lançado aos ouvidos com a mesma simplicidade, numa toada simultaneamente primitiva (não há aqui sinais do rock de tempos idos?) e contemporânea, plena de substância, de fantasia e de desvario. Os Wolf Parade são corsários que roubaram e embriagaram (ou forçaram ao contacto com alucinogénicos?) o rock , que lhe emprestaram sintetizadores cortantes e timbres alucinados de piano e o converteram, com argúcia, a um circo de habilidades e surpresas. Apologies to Queen Mary é, em si mesmo, uma caixinha de surpresas, não de Pandora mas de Orfeu, um disco digno de ser ouvido repetidamente, tantos os segredos sob o seu resguardo.

Apologies to Queen Mary é um disco entusiasmante porque alterna entre o desatino extravagante e a razão consciente, com a mesma alvura e singeleza e sem perder o equilíbrio. Sem concessões, farto de espontaneidade e grandes canções, este desfile de lobos e as suas desculpas à rainha têm tudo para se tornar um vício. Vai uma aposta?

 

 


5. THE MARS VOLTA
FRANCES THE MUTE

Provindo das cinzas dos At The Drive-In, o projecto The Mars Volta apresenta um conceito rock ambicioso, com o desígnio de afirmar novas fronteiras, sob a convicção de que o hardcore , o improviso extravagante e o psicadelismo são fontes primárias. Partindo desse preceito, o colectivo concebe um género rock não generalista, inspirado na arte progressiva. Frances The Mute é intenso e paranóico; tem uma orgânica complexa, em tangência com uma inquietante e volátil sensação de ansiedade. O disco é aprimorado no detalhe e aventura-se no exigente desafio de (des)construir a rigidez do rock , indo além do antecessor De-loused In The Comatorium (2003) na inclusão de influências sónicas variadas: há aqui flamenco, emo , free jazz e rock progressivo. O alinhamento de Frances The Mute contempla cinco faixas, cada uma junta pedaços de composições, na criação de um documento maior, um supremo exercício de criatividade e génio. Para o auditor, Frances The Mute é uma jornada sensacional, sem destino definido, um arroubo que apetece aceitar sem reflectir, um repto impreterível de ritmos descontínuos. Mais do que um disco, Frances The Mute é uma peça de arte angélica e dissonante, derriba todos os preconceitos musicais e torna-se uma alucinante definição do auge de uma nova família musical.

Não há como negar: Frances The Mute é um disco soberbo. Rock crescido, alienado e genial para mentes evoluídas. Não é um tomo imediatamente acessível, deve ser lentamente ruminado, até que se lhe degustem todos os travos sónicos. E uma vez completada a prova, é irreprimível o desejo de repetir muitas e muitas vezes.

 

 


4. CLAP YOUR HANDS SAY YEAH
CLAP YOUR HANDS SAY YEAH

Quinteto de Brooklyn, os Clap Your Hands Say Yeah apresentam-se numa edição de autor de que muito se tem falado (e escrito) em terras de Tio Sam. Entre os cotejos recidivos com os Violent Femmes, os Arcade Fire ou Talking Heads (dá para mascarar?), Alec Ounsworth e seus pares inventaram um disco que, além de revigorar o conceito art-pop , os leva um pouco adiante daqueles estímulos, num registo profundamente emocional e singularmente apelativo e que, graças a uma dinâmica invulgar de incitamentos criativos, se reinventa ao longo das doze faixas de um alinhamento melodioso. O júbilo das harmonias não é, contudo, feito de instantes excessivamente melosos, antes deriva de uma orgânica instrumental expedita e da elasticidade vocal de Ounsworth que, sem pejo de comparações e sem a asfixiante obsessão de criar a next big thing , afirmam um estilo próprio. E se é certo que não se trata de uma assinatura particularmente inovadora - o traço dos Clap Your Hands Say Yeah não mudará o curso da música - não é menos verdade que este disco homónimo propõe um corpo convincente de canções (o tema circense de abertura é a única falha) e que certifica os CYHSY como mais que provável revelação do ano.

Clap Your Hands Say Yeah tem qualquer coisa de enleante e docemente assombrado e conduz o ouvinte a um retemperante universo de paisagens sónicas louçãs, desenhadas com a mestria, o talento e a perseverança de uma banda que nos lega uma obra digna de repousar nas nossas memórias por muito tempo. Os Clap Your Hands Say Yeah são rock , pop , indie , retro , art ...E depois de escutar este disco é (quase) impossível não sentir um impulso repentino e inadiável para bater palmas e clamar a plenos pulmões: Yeeeaaahhhhh!!.

 

 


3. ANIMAL COLLECTIVE
FEELS

Quem ainda não conhece os Animal Collective, nesta altura do campeonato, não é merecedor do sentido auditivo. Sediados em Nova Iorque, Avey Tare e Panda Bear (a eles se juntam Deakin e Geologist) irromperam para o estrelato no ano transacto, com o deliciosamente alienado Sung Tongs , trazendo uma rajada de ar fresco (o substantivo lufada não faz justiça, por inteiro, à façanha dos Animal Collective) ao marasmo que, por vezes, firma estabelecimento no circuito mais experimental da música alternativa. E se há adeptos incondicionais do experimentalismo, mesmo da ousadia criativa sem fronteiras, são certamente estes dois rapazes. A música que assinam é, antes de mais, um turbilhão de emoções, umas vezes psicadélicas, outras vezes poéticas e sempre com um fundo musical viçoso, praticamente impossível de seriar mas, acima de tudo, encantadoramente inovador. Essa doutrina exploratória continua a ser o fio condutor de Feels , embora seguindo motes um tanto distintos. O cotejo inevitável com o trabalho anterior leva a uma inferência óbvia: não há limites para os Animal Collective! Eles são saudavelmente irrequietos, não se acomodam a formalismos e procuram uma fórmula musical cuja virtude maior é a transgressão de regras e o cruzamento de géneros. Assim, é comum encontrar nas composições da dupla americana, ainda que atrás de uma camuflagem oportuna, os feitios da folk mais intimista (particularmente sensíveis na segunda metade de Feels ) ou os saracoteios das seitas rock'n'roll dos anos 50 e 60, aqui baralhados com pedaços de percussão quase tribalista e vocalizações voláteis. Chamar apenas folk electrónica à reacção química espontânea que é a música dos Animal Collective é ser restritivo. E ter ouvidos curtos.

Feels é mais aberto (e menos acústico) e acessível do que outros frutos do ensemble americano mas não deixa de renovar o culto a uma miríade de atalhos musicais que se projectam na mente do auditor, como pedaços fracturados de imagens e memórias. Cada canção é um manancial mágico de conceitos, a caminho de clímaces impacientes que se insinuam obstinadamente, quais réplicas antes das inquirações. Essas surgem depois, nos silêncios do fim do disco, quando o auditor, embevecido pela excursão inesperada a um sítio de quimeras, se deixa levar pela ressonância das melodias e não resiste ao impulso de voltar à primeira faixa. Mas as respostas, audição após audição, não aparecem. Antes, se renovam as perguntas. Porque assim continua a bucólica e esotérica maravilha dos Animal Collective. Os Beatles em Marte talvez fossem assim...

 

 


2. BROKEN SOCIAL SCENE
BROKEN SOCIAL SCENE

Quando cerca de uma quinzena de pessoas concentram noções musicais num objecto comum é de esperar que o produto dessa experiência conjunta seja uma síntese versátil. Um disco feito nesses moldes reclama também uma dinâmica de grupo bem oleada e a reflectida alocação das diferentes perspectivas de criação. O projecto Broken Social Scene é uma dessas trupes musicais (neste momento tem dezassete elementos) e nasceu da amizade entre Kevin Drew e Brendan Canning e foi-se alargando a músicos convidados ilustres como Evan Cranley (dos Stars), Emily Haines (dos Metric) ou Leslie Feist. As composições de tão ambicioso ensemble são férteis em imprevistos e fomentam, num estilo lustroso e desembaraçado, a expansão de ideias, graças a uma orgânica instrumental sem vácuo e a uma miríade de vozes desiguais. Depois, a desinibição das faixas manifesta-se nas excentricidades pop e no senso melódico de um trabalho que alcança o raro fito de juntar diversos talentos individuais num todo sinérgico. Da miscelânea faz-se harmonia. Do caos nasce magia.

O apontamento dominante de Broken Social Scene é a surpreendente coesão das composições, em torno de uma abstracção pop profundamente cativante e que, embora pareça menos afoita em determinados momentos do disco, remete o auditor para uma grandeza orquestral incomum, mais própria para uma jam session , feita de colagens experimentais, de batidas ora trôpegas ora diligentes, de enredos de guitarra, de reviravoltas e ripostas frenéticas. Broken Social Scene é um álbum de outra dimensão, um exercício exploratório sem alavanca ou travão, um impossível delírio criativo, uma paleta de cores garridas e detalhadas. Ao ouvi-lo, vez após vez, apetece desdobrar-lhe as nuances e tirar o chapéu a uma banda (ou orquestra?) que vale por uma dúzia. Uma constelação brilha mais do que uma estrela só...

O terceiro longa-duração destes canadianos é uma colecção de impulsos musicais cheios de méritos, ainda que a algumas das faixas falte o suculento magnetismo de "Ibi Dreams of Pavement", "Swimmers" (com a voz de Feist) ou "Superconnected", exemplos do melhor indie pop deste ano. Por isso, Broken Social Scene não será o disco magno de 2005, mas estará certamente presente nos best of de muitos melómanos por esse mundo fora. Imperdível.

 

 


1. SUFJAN STEVENS
COME ON FEEL THE ILLINOISE

Segundo capítulo da mais improvável missão discográfica da história - pretensamente Sufjan Stevens intende fazer um disco de homenagem por cada um dos cinquenta estados americanos - Illinoise é um trabalho ambicioso e aromatizado pelo olores graciosos das composições épicas de Stevens: a harmonia das melodias suaves, o espírito pioneiro de assimilação do rock clássico com um certo vanguardismo folk e uma dose reforçada de criatividade ambígua e artesanal, vertida em orquestrações e vocalizações pomposas. O alinhamento do álbum está dividido em vinte e duas faixas, fragmentos genuínos de um retrato expositor das feições distintivas do Illinois, também do microcosmo americano, reproduzido fielmente em narrativas que assumem, entre outras coisas, as formas amalgamadas de rapazes choradores, de mulheres com cancro, de desfiles e coretos, de padrastos e serial killers (por aqui figura o vil John Wayne Gacy que entre 1972 e 1978 torturou, violou e assassinou 33 jovens rapazes...). E da substância musical que provém de Illinoise ressalta o engenho de Stevens, igualmente hábil e sensível, seja a musicar o flanco negro dos retalhos que colheu no passado do Illinois, ou a mostrar-nos a disparidade complacente das cores garbosas de outros recortes. Em ambos os registos, sobressai o sentido das composições, apoiadas em arranjos de eleição, os verdadeiros catalisadores da irresistível sedução de um corpo de canções adultas e eruditas, com o sublime recato das grandes obras.

Illinoise é um disco único, uma pedra preciosa burilada até ao mais ínfimo pormenor, um guião musical gigantesco e intenso que capta, vencido o crivo da moldagem de Stevens, a identidade de um estado, de um país. Depois de ter escutado este disco, quem ousará dizer que não conhece o Illinois? E alguém se dará ao luxo de não ouvir? Obrigatório (e candidato a melhor do ano...), imperdível, excepcional. Só escutando com reverência este Illinoise , se crê que ainda se fazem discos assim...

 

 

 

 

 

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António Pinto @ 2005 . Todos os direitos reservados